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Experiências impactantes, parceria com universidade local: os resultados de uma expedição humanitária na África

27/02/2024

Após 10 dias prestando atendimento médico em vilarejos de extrema vulnerabilidade em Benin, quinto país mais pobre do continente africado, o grupo de 30 estudantes de medicina, assim como os 14 docentes, retornaram ao Brasil com sentimentos renovados na bagagem: transformação, empatia e muito aprendizado. A Missão África, projeto da Inspirali que visa levar a medicina humanizada como atividade prática e de extensão universitária ao currículo dos futuros médicos, aconteceu de 24 de janeiro a 7 de fevereiro, período em que atenderam cerca de 300 pessoas por dia em 10 diferentes vilarejos, totalizando cerca de 3 mil atendimentos.

Em Benin, a mortalidade infantil chega próximo dos 50% no primeiro ano de vida e a expectativa de vida é em média 53 anos. Rodrigo Dias Nunes, diretor médico da regional Sul da Inspirali e coordenador do projeto, acredita que este tenha sido o único atendimento que estas pessoas vão ter ao longo da vida. “Tudo o que aprendemos nas cinco edições da Missão Amazônia serviu como base nesta experiência na África, porém em um patamar de dificuldades muito superior. Temos aqui no Brasil algo que faz toda a diferença para as pessoas: o SUS. Na Amazônia, por mais difícil que seja, a população tem acesso a medicação e a exames. Em Benin, as pessoas nascem e morrem e não há registro dessas informações. Não adianta passar uma receita para continuidade de medicação pois não possuem dinheiro para comprar. Muitas enfermidades poderiam ser solucionadas com uma boa alimentação ou o simples ato de beber água, mas lá eles não possuem estes recursos básicos”, conta.

Com consultórios improvisados sobre sombra de árvores, atendimentos sendo realizados em blocos de tijolo e bancos que serviam de maca para exames, os alunos aprenderam muito também sobre diferenças culturais e tiveram que se adaptar ao idioma local. “Os mais velhos falam apenas o dialeto local e os mais jovens um pouco do francês. Então tivemos que improvisar muito com mímica e contamos com a ajuda de tradutores, alguns voluntários, que chegavam a caminhar mais de duas horas para nos prestar esta ajuda nos vilarejos”, complementa Rodrigo. A farmácia era centralizada e os medicamentos, arrecadados e levados pelos alunos, eram cuidadosamente classificados e organizados em grupos na véspera de cada dia de atendimento.

“Tivemos muita dificuldade com estrutura, alimentação e logística. A luz era muito instável, o calor ardente e todos os dias faltava água, para beber e para banho. Como esperado, foi bem exaustivo física e emocionalmente. Mas quando iniciávamos os atendimentos, nos deparávamos com pessoas que estavam há três dias sem comer, necessitando de cuidados e, na maioria dos casos, nunca tinham recebido atendimento médico antes. Isso é muito impactante e nos fez valorizar ainda mais o respeito, o toque, o olhar”, conta Rodrigo Dias Nunes, diretor médico da regional Sul da Inspirali e coordenador do projeto.

Rodrigo conta que os alunos fizeram toda a diferença, mesmo diante de situações extremas e muitas emoções. “Nos primeiros dias, tínhamos que estar muito atentos a eles. Tivemos muitas conversas de acolhimento, de apoio. Mas percebi que foi uma experiência de transformação para todos. Eles deram um show de conhecimento, destreza, resiliência, habilidade, carinho, união, foram realmente incríveis”, elogia.

“Estávamos no segundo dia de atendimento, com muita gente aguardando. Então recebi uma paciente, por volta de seus 28 anos, com 5 crianças bem debilitadas, bastante impetigo. Fiquei desesperada porque as crianças tinham em média 1 ano e meio. Atendi as crianças, e quando fui atender a mãe, as queixas relatadas eram de desidratação e falta de leite. Ela me contou que conseguia comprar alguns litros de água por semana, mas não era suficiente. Falei que ela precisava tomar mais água para ter leite e ela, muito emocionada, me disse que não podia porque precisava dar água para os filhos. Com isso, já fiquei emocionada. Então, toda envergonhada – por conta do nosso tradutor ser homem – ela tomou coragem e relatou outra queixa: sentia um nódulo no seio que era grande e estava crescendo. Examinei, com a ajuda do professor Rodrigo, e mesmo sem um diagnóstico preciso, sabíamos que aquilo não era positivo. Mediquei ela e os filhos com o que tínhamos à disposição, mas sabia que ela nunca iria fazer novos exames, nem veria outro médico na vida. Aquilo me impactou pois talvez logo aquelas crianças ficariam sem mãe e eu não tinha mais nada que pudesse fazer. Isso foi apenas uma demanda do dia. Tive que seguir em frente para as próximas que viriam”, relata a aluna Pâmela Altíssimo, da UNISUL Pedra Branca, SC.

Os participantes da Missão também deram muita ênfase ao choque cultural. Mulheres inférteis descartadas da sociedade, pessoas com problemas mentais acorrentados em casa pela família por acreditarem estarem possuídos por espíritos maléfico, entre muitos outros relatos curiosos. “Os partos normais são silenciosos. Se as gestantes gritam de dores das contrações durante o trabalho de parto, são eventualmente agredidas verbal ou até fisicamente pelas obstetrizes. As práticas humanizadas de saúde ainda não chegaram por aqui”, complementa José Lucio Martins Machado, CMO da Inspirali.

“De todos os lugares e comunidades que atendemos, o lago de Lok-Po é onde reside a população com piores condições de vida. É um local onde a população ribeirinha despeja o lixo, os dejetos humanos e também entrega seus cadáveres. Ao mesmo tempo, o lago serve a água que se bebe e produz o peixe que se come. Não há luz elétrica, as casas são construídas sobre colunas de madeira ou cimento para se protegerem das cheias do lago. Muitas doenças de pele, impetigo, molusco contagioso, sarna que, só de olharmos já nos dava coceiras. Salmonella é algo endêmico nessa região. Comer verduras lá, nem pensar”, relata José Lucio.

Legado

A Missão África também proporcionou grandes parcerias e articulações. A Inspirali realizou diversas conversas com a Universidade em Cotonou para tratar de um MOU (memorando de entendimento) no campo da cooperação técnica e intercâmbio de estudantes e professores, que deve acontecer nos próximos anos. Além disso, em reuniões com representantes do Ministério da Saúde, foram plantadas algumas sementes para futuras ações como o envio de vacinas, que lá é muito raro, reformulação do hospital local para comportar cirurgias e novas edições da Missão.

“Tenho a convicção de que a Missão Amazônia e a Missão África são legítimas formadoras de lideranças acadêmicas e da saúde. Daqui sairão bons médicos, bons empreendedores, bons cidadãos, bons pais e mães de famílias. Meu papel e dos demais professores é apoiá-los num profundo processo de transformação”, finaliza José Lucio.

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