Inteligência artificial avança nas salas de aula e acende alerta sobre aprendizagem e desenvolvimento infantil

05/05/2026
Mixed-race boy in glasses rising hand for answer during lesson. Back view of kid sitting at table with laptop computer and studying at school. Childhood, knowledge and digital education concept

Especialistas destacam benefícios da tecnologia, mas alertam para riscos no raciocínio, autonomia e formação das novas gerações

O uso cada vez mais presente da inteligência artificial no cotidiano já chegou às salas de aula e vem transformando a forma como crianças e jovens aprendem, pesquisam e produzem conhecimento. No Dia da Educação, celebrado em 28 de abril, o tema ganha ainda mais relevância diante de uma geração hiperconectada desde os primeiros anos de vida.

Dados recentes reforçam esse cenário: pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Datafolha, mostra que 78% das crianças de 0 a 3 anos têm contato diário com telas, índice que sobe para 94% entre aquelas de 4 a 6 anos.

Se, por um lado, as novas tecnologias ampliam o acesso à informação e podem apoiar o processo educativo, por outro, levantam preocupações sobre o desenvolvimento cognitivo e a construção autônoma do conhecimento.

Para a professora Cynthia Pichini, do curso de Letras da Universidade São Judas, o uso da inteligência artificial exige mediação pedagógica. “A tecnologia amplia o acesso à informação, mas não garante aprendizagem. Sem participação ativa, o conhecimento não se consolida e habilidades como pensamento crítico e autonomia ficam comprometidas”, afirma.

Um dos principais desafios, segundo a docente, é o uso dessas ferramentas como substitutas do processo de aprendizagem. “Quando o aluno delega à tecnologia a construção das respostas, deixa de exercitar o cérebro. O aprendizado acontece na elaboração, no erro e na revisão. Sem esse percurso, há prejuízo no desenvolvimento intelectual”, explica.

Impactos vão além da sala de aula

As mudanças não se restringem ao ambiente escolar e já refletem no comportamento e na saúde das crianças. O pediatra e professor de medicina da São Judas, cujo curso de medicina faz parte da  Inspirali, ecossistema que atua na gestão de 15 escolas médicas em diversas regiões do Brasil, Rui de Paiva destaca que a exposição digital precoce intensifica os efeitos do uso inadequado dessas ferramentas.

“A Sociedade Brasileira de Pediatria não recomenda telas para crianças de até dois anos e orienta limites rigorosos nas demais faixas etárias. Ainda assim, é comum que muitas passem duas horas ou mais por dia diante de dispositivos”, alerta.

Segundo o especialista, essa exposição contínua influencia diretamente a forma de aprender. “Observamos maior dificuldade de concentração e uma tendência à busca por respostas imediatas, o que compromete prejudica processos que exigem tempo, esforço e construção gradual do conhecimento”, diz.

O uso da tecnologia como atalho em atividades escolares também preocupa. “Se a criança não precisa pensar para responder, a reflexão deixa de ser necessária deixa de aprender. Isso pode resultar resulta em dificuldades de concentração, interpretação e raciocínio, comprometendo, no mínimo, o desempenho escolar”, completa.

Diante desse cenário, tanto a professora Cynthia como Paiva ressaltam a necessidade de uma atuação coordenada entre escola e famílias, com definição de limites e uso orientado das tecnologias digitais. O objetivo é garantir que essas ferramentas contribuam para a aprendizagem, sem substituir etapas fundamentais do desenvolvimento intelectual.

No Dia da Educação, o debate sobre inteligência artificial expõe um dilema que já não pode ser adiado: como incorporar inovação sem empobrecer o processo de aprendizagem. O equilíbrio entre tecnologia e desenvolvimento humano será decisivo para formar uma geração capaz de pensar, e não apenas de reproduzir respostas.

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