Risco de transtorno do jogo aumenta durante Copa do Mundo

12/06/2026
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Especialista explica os mecanismos envolvidos nas apostas esportivas e alerta para grupos de maior vulnerabilidade

 

Com a proximidade da Copa do Mundo, que se inicia em de junho, cresce a movimentação nas plataformas de apostas esportivas. Paralelamente, especialistas em saúde mental alertam para o aumento do risco de desenvolvimento do Transtorno do Jogo (CID-11: 6C50), condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno relacionado a comportamentos aditivos padrões repetitivos e compulsivos de ação ou consumo que proporcionam prazer ou alívio temporário, mas que podem causar danos físicos, psicológicos e sociais.

Embora a maioria das pessoas aposte ocasionalmente sem desenvolver um transtorno, grandes eventos esportivos elevam significativamente a exposição a estímulos relacionados ao jogo. A intensa cobertura midiática, o marketing agressivo das empresas e o engajamento emocional dos torcedores favorecem um ambiente propício para o crescimento das apostas.

“A dependência não surge apenas pela possibilidade de ganho financeiro. O que mantém muitas pessoas apostando é um mecanismo neurobiológico semelhante ao observado em outras adições. O cérebro passa a responder à expectativa da recompensa, especialmente quando ela ocorre de forma imprevisível”, explica o psiquiatra Ivan Araújo, professor de Medicina da Universidade Salvador (UNIFACS) / Inspirali.

Segundo o especialista, as plataformas utilizam estratégias baseadas em princípios amplamente estudados da psicologia comportamental, como reforço intermitente, recompensas variáveis, notificações constantes e bônus promocionais. Esses mecanismos aumentam o engajamento e dificultam o controle do comportamento.

“O sistema de recompensa cerebral é particularmente sensível a recompensas imprevisíveis. Pequenos ganhos ocasionais podem reforçar a continuidade das apostas mesmo diante de perdas financeiras repetidas”, destaca.

Estudos demonstram que indivíduos com histórico de impulsividade, Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), transtornos por uso de substâncias, transtornos do humor e ansiedade apresentam maior vulnerabilidade ao desenvolvimento do transtorno do jogo. Mas não são os únicos, como ressalta o psiquiatra: “A principal armadilha é acreditar que conhecimento esportivo reduz o risco. Mesmo especialistas em esportes permanecem sujeitos aos mesmos vieses cognitivos e às mesmas probabilidades matemáticas que qualquer outra pessoa”.

Sinais de alerta

Os principais sinais incluem aumento progressivo dos valores apostados, preocupação excessiva com apostas, tentativas malsucedidas de reduzir ou interromper o comportamento, irritabilidade quando impedido de jogar, perseguição de perdas (“apostar para recuperar prejuízos”), comprometimento financeiro e prejuízos familiares, acadêmicos ou profissionais.

“O problema costuma evoluir de forma silenciosa. Muitas vezes o indivíduo procura ajuda apenas quando já existem dívidas importantes, conflitos familiares ou sofrimento emocional significativo”, alerta Araújo.

Prevenção e cautela

Especialistas recomendam que as apostas sejam encaradas exclusivamente como entretenimento, nunca como fonte de renda ou estratégia de investimento. O estabelecimento prévio de limites financeiros e de tempo, a não utilização de crédito ou empréstimos para apostar e a interrupção imediata da atividade diante de sinais de perda de controle são medidas fundamentais para reduzir os riscos associados ao comportamento de jogo.

Familiares e amigos também desempenham papel importante na identificação precoce de mudanças comportamentais, especialmente em adolescentes e jovens adultos, grupo que apresenta elevada exposição às campanhas publicitárias do setor.

Em casos de suspeita de Transtorno do Jogo, a busca por atendimento especializado deve ocorrer precocemente. O tratamento pode envolver psicoterapia baseada em evidências, especialmente Terapia Cognitivo-Comportamental, além de acompanhamento psiquiátrico para manejo de comorbidades frequentemente associadas, como ansiedade, depressão e transtornos relacionados ao controle dos impulsos.

“O diagnóstico precoce e a intervenção adequada aumentam significativamente as chances de recuperação e reduzem o impacto financeiro, familiar e emocional causado pelo transtorno”, conclui Ivan Araújo.

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